Pedido para as estrelas

Michelle Jana Chan escreveu ... 

Dizem que os incas não focavam nas estrelas durante a noite. Ao invés de apontarem para os corpos celestes brilhantes e juntar os pontos para formar as constelações, eles encontraram um significado em cada mancha escuras do céu noturno. Para eles, uma mancha na escuridão abaixo do Cruzeiro do Sul era a cabeça de uma cobra; uma cauda escura e ondulada em forma de serpente que percorria o que chamamos de Via Láctea. Ainda mais poderosas eram as manchas pretas representando uma mãe lhama com um bebê; os olhos da mãe eram a única parte brilhante da imagem que são as estrelas Alfa e Beta Centauri. 

Quase mil anos depois, Alma - Atacama Large Millimeter / submillimeter Array (um rádio observatório constituído por um conjunto de 66 antenas), mas que também está olhando para os lugares mais escuros do universo. Este telescópio, que foi inaugurado em 2013, não está apontando para estrelas, mas para as nuvens de poeira e gás intermediárias, onde se detectam sinais fracos de rádios e a coleta de dados sobre o nascimento e evolução de planetas e estrelas. 

Com seus planaltos de grande altitude, céu limpo e baixa umidade, o Chile é o lugar ideal para a astronomia; assim como o Alma, o Chile tem a maioria dos observatórios terrestres mais poderosos do mundo. O Chile ainda tem leis contra a poluição luminosa excessiva “para preservar nossa escuridão, nosso patrimônio nacional”, como explicou o guia local. 

É uma alegria olhar para o céu noturno aqui, mesmo a olho nu. Mal tive pedidos suficientes para acompanhar o número de estrelas cadentes que vi. Mesmo perto do horizonte, as constelações são claramente identificadas. A Via Láctea é tão brilhante que durante a lua nova pode gerar uma sombra. 

Minha jornada começou na capital, Santiago. Nas montanhas da periferia está o Observatório Astronômico Andino. O local possui três telescópios noturnos e três telescópios solares com filtros que permitem a observação do sol. Nosso guia, Simón Andrés Ángel, um estudante de astronomia do quinto ano, que transborda entusiasmo, perguntou: Por que escolhi estudar esta área? Porque não há nada maior que você possa fazer do que mergulhar nos mistérios do universo.” 

Mais ao norte, o Vale do Elqui abriga o centro astronômico mais antigo do hemisfério sul: o Observatório Cerro Tololo, fundado em 1965. Está aberto ao público apenas durante o dia, portanto os visitantes podem vir e ver os equipamentos, mas não a equipe trabalhando. Viajar meio mundo para ver algumas máquinas grandes pode parecer extremo ou extravagante, mas não são apenas os geeks que se maravilharão com os feitos de design e engenharia por aqui. Os astrônomos em Tololo estão usando uma das câmeras de mapeamento do céu mais poderosas do mundo para localizar milhares de supernovas e dezenas de milhões de galáxias; todas as noites, os supercomputadores devem armazenar 30 terabytes (30 trilhões de bytes) de imagens. A cabeça dá um nó! 

Outras atrações turísticas astronômicas do Vale do Elqui estão abertas à noite. No Observatório Mamalluca, os visitantes podem olhar através de telescópios ópticos para ver nebulosas e aglomerados estrelares, como a conhecida “Caixa de Joias” com cerca de 100 estrelas vermelhas, azuis e brancas. O nome menos elegante de NGC 5139 contém milhões de estrelas e é o maior e mais brilhante aglomerado conhecido em nossa galáxia. Através de um telescópio, sua incomensurabilidade lembra uma folha de dente-de-leão. 

Ainda mais ao norte, o Paranal abriga o Very Large Telescope Project operado pelo European Southern Observatory. Novamente, o público só pode visitar durante o dia. Eles verão quatro enormes telescópios, bem como a arquitetura premiada da Residence, um espaço subterrâneo onde os cientistas vivem e trabalham. O interior abobadado está repleto de plantas tropicais para reidratar os trabalhadores que vivem neste clima seco e nesta altitude elevada. O local deu um boom depois do filme Quantum of Solace, mas continua impressionantemente preservado. 

Passei grande parte da noite conversando com cientistas, cuja capacidade cerebral parecia atingir o pico enquanto a minha diminuía. “Estamos trabalhando sem parar”, disse-me um astrônomo da equipe, Dimitri Gadotti. “Um artigo inovador está sendo escrito - e será uma para cada telescópio.” 

A Dra. Avril Day-Jones, visitante da Grã-Bretanha, disse-me que o interesse pela astronomia estava aumentando. “Antigamente era tudo sobre OVNIs e Deus. As pessoas costumavam pensar que eu era um astrólogo. Agora, algumas pessoas me perguntam sobre buracos negros e cometas.” 

O entusiasmo foi recentemente transferido para Alma, no alto do planalto Chajnantor, no coração do Deserto de Atacama. A 16.500 pés acima do nível do mar, 66 antenas de alta precisão, que se parecem com antenas parabólicas, se juntam para atuar como um único telescópio. Sua alta resolução e sensibilidade permitem que os cientistas pesquisem até os cantos de nosso universo, conhecidos logo após o Big Bang. 

A tecnologia é complicada, mas isso não torna os objetivos da Alma difíceis de entender. “Acho que a astronomia é uma das poucas ciências em que o público leigo tem as mesmas perguntas que os profissionais”, diz Pierre Cox, diretor da Alma. “A astronomia é fascinante porque qualquer pessoa pode olhar para o céu e maravilhar-se” 

CIRCUITO ESTRELADO DO CHILE 

O horário de funcionamento pode mudar dependendo da temporada. 

Observatório Astronômico Andino 
Os arredores de Santiago, são um bom começo para astrônomos amadores e astrônomos casuais. As excursões podem ser em inglês e incluem lanches, vinho e transporte de e para o seu hotel (o observatório fica a 45 minutos de carro do centro). Segundas, sextas e sábados (20h no inverno; 21h no verão). 

Cerro Tololo 
A uma hora de carro da cidade de La Serena na província de Elqui, este é um dos observatórios mais antigos do Chile e tem oito telescópios e um radiotelescópio. As visitas guiadas em inglês são oferecidas todos os sábados durante o dia, têm duração de duas horas e são gratuitas. As vagas são limitadas, então você precisa reservar com algumas semanas de antecedência. O observatório Gemini fica próximo, porém não oferece passeios públicos programados, mas pode receber professores ou alunos que trabalham com astronomia. 

Observatório Turistico de Mamalluca 
Fora da cidade de Vicuña, também em Elqui, as visitas guiadas em inglês começam depois de escurecer com a ajuda dos 13 telescópios do local. Os tours são oferecidos durante todo o ano, começando às 20h no inverno e às 21h no verão. 

Paranal 
Ao sul da cidade de Antofagasta, a 8.250 pés acima do nível do mar, é o local do Very Large Telescope Project, um dos telescópios ópticos e centros de pesquisa astronômica mais importantes do mundo. As visitas são nos dois últimos sábados de cada mês e são gratuitas 

Alma 
Custando mais de US $ 1 bilhão, este telescópio - uma joint venture envolvendo a Europa, América do Norte e Leste Asiático em cooperação com a República do Chile - fica a uma curta distância de San Pedro de Atacama. Ele pode ser visto de vários pontos da região. Está aberto à visitação pública durante o dia aos sábados e domingos. É obrigatório fazer pré- registro. 

Hotéis no Atacama  
Existem observatórios dentro de alguns hotéis em San Pedro de Atacama, incluindo os favoritos da Dehouche - Explora e Alto Atacama. Com a ajuda de poderosos telescópios, os guias apontarão Júpiter e suas luas, Saturno e seus anéis, e os redemoinhos mágicos da Nebulosa de Órion, um dos assuntos favoritos do Telescópio Hubble. Esta é uma atividade imperdível para quem viajar ao Atacama.  

QUANDO IR 

O final do verão (março e abril) e o início do outono (outubro e novembro) costumam ter o céu mais limpo e menos turistas. Evite visitar durante a lua cheia para ver o máximo de estrelas. 

Michelle Jana Chan é uma jornalista premiada e editora da Vanity Fair on Travel. Ela também escreve regularmente para Condé Nast Traveller, Telegraph, Travel + Leisure, Wall Street Journal e the Financial Times. Seu primeiro romance, “Song”, foi publicado pela Unbound em 2018.