Cenário Gastronômico do Rio

October 15, 2025

Uma sublime sinfonia de floresta tropical, rochas e amplas praias atlânticas, o Rio de Janeiro é o rosto com o qual o Brasil deslumbra o mundo. Mas a cidade do carnaval foi eclipsada, nas disputas modernas de poder, por São Paulo, o dínamo industrial da América Latina – e suas trajetórias culinárias há muito seguiram o mesmo caminho. Ondas de imigração vindas de lugares tão distantes quanto o Japão e a Itália alimentaram uma cena gastronômica fantasticamente diversa em São Paulo, enquanto o Rio – a antiga capital colonial do Brasil – descansava sobre seus louros, tornando-se uma referência regional para petiscos de bar pesados vendidos nos botecos poeticamente conhecidos como pé sujos – literalmente “pés sujos”.

Recentemente, porém, a cidade mais bonita do Brasil também tem se tornado mais agradável ao paladar, com uma nova e sensacional leva de barracas criativas de comida de rua, restaurantes de alta gastronomia e bares de praia que são, finalmente, dignos do mais deslumbrante litoral urbano do mundo. O Rio é agora um destino gastronômico pelo qual vale a pena atravessar um oceano para explorar – profundo, diverso e delicioso.

O jornalista de viagens britânico, Tom Yarwood, nos dá um panorama de quatro de seus lugares favoritos para comer no Rio.

Aconchego Carioca

Longe dos pontos turísticos de Ipanema e Copacabana, este restaurante familiar na suburbana Praça da Bandeira é o local preferido por vários dos cozinheiros mais famosos do Rio, incluindo Claude Troisgros e Roberta Sudbrack. A chef Katia Barbosa é especialista nos pratos com influência africana do nordeste do Brasil – especialmente moquecas e bobós, ensopados de frutos do mar carregados de óleo de dendê e coco, e intensificados com pimenta e limão. Mas ela também os reinventou de forma brincalhona no formato dos clássicos petiscos de bar do Rio de Janeiro. O mais conhecido de seus singulares jeux d’esprits é o bolinho de feijoada – o onipresente ensopado brasileiro de feijão com carne de porco, aqui arrumado em bolinhos elegantes semelhantes a faláfel, cada um transbordando de couve salgada e brilhante, e finalizado por uma fina fatia doce de laranja e um gole eletrizante de cachaça artesanal.

Tacacá do Norte

Ventiladores de teto rangendo lentamente e azulejos rachados dão a este minúsculo café-bar amazônico um ar de glória desbotada, pós-ciclo da borracha. Atendendo principalmente imigrantes de Belém – uma cidade na foz do grande rio, tão distante do Rio quanto Moscou está de Londres – ele oferece interpretações autênticas dos singulares ingredientes tropicais que estão no coração da mais moderna haute cuisine metropolitana do Brasil. O tacacá em si é uma sopa cítrica e azeda de camarão, repleta de folhas de jambu que adormecem a língua e escondendo um inquietante e gigantesco glóbulo transparente de goma de tapioca com textura de catarro. Igualmente revigorante é o açaí, a pasta da “superfruta” que virou mania entre os frequentadores de academia cariocas, aqui servido em sua forma tradicional amazônica – sem guaraná; cremoso, não crocante de gelo; e com notas de cacau intensamente amargas contrastando com sua doçura sedutora.