Uma sublime sinfonia de floresta tropical, rochas e amplas praias atlânticas, o Rio de Janeiro é o rosto com o qual o Brasil deslumbra o mundo. Mas a cidade do carnaval foi eclipsada, nas disputas modernas de poder, por São Paulo, o dínamo industrial da América Latina – e suas trajetórias culinárias há muito seguiram o mesmo caminho. Ondas de imigração vindas de lugares tão distantes quanto o Japão e a Itália alimentaram uma cena gastronômica fantasticamente diversa em São Paulo, enquanto o Rio – a antiga capital colonial do Brasil – descansava sobre seus louros, tornando-se uma referência regional para petiscos de bar pesados vendidos nos botecos poeticamente conhecidos como pé sujos – literalmente “pés sujos”.

Recentemente, porém, a cidade mais bonita do Brasil também tem se tornado mais agradável ao paladar, com uma nova e sensacional leva de barracas criativas de comida de rua, restaurantes de alta gastronomia e bares de praia que são, finalmente, dignos do mais deslumbrante litoral urbano do mundo. O Rio é agora um destino gastronômico pelo qual vale a pena atravessar um oceano para explorar – profundo, diverso e delicioso.

O jornalista de viagens britânico, Tom Yarwood, nos dá um panorama de quatro de seus lugares favoritos para comer no Rio.

Aconchego Carioca

Longe dos pontos turísticos de Ipanema e Copacabana, este restaurante familiar na suburbana Praça da Bandeira é o local preferido por vários dos cozinheiros mais famosos do Rio, incluindo Claude Troisgros e Roberta Sudbrack. A chef Katia Barbosa é especialista nos pratos com influência africana do nordeste do Brasil – especialmente moquecas e bobós, ensopados de frutos do mar carregados de óleo de dendê e coco, e intensificados com pimenta e limão. Mas ela também os reinventou de forma brincalhona no formato dos clássicos petiscos de bar do Rio de Janeiro. O mais conhecido de seus singulares jeux d’esprits é o bolinho de feijoada – o onipresente ensopado brasileiro de feijão com carne de porco, aqui arrumado em bolinhos elegantes semelhantes a faláfel, cada um transbordando de couve salgada e brilhante, e finalizado por uma fina fatia doce de laranja e um gole eletrizante de cachaça artesanal.

Tacacá do Norte

Ventiladores de teto rangendo lentamente e azulejos rachados dão a este minúsculo café-bar amazônico um ar de glória desbotada, pós-ciclo da borracha. Atendendo principalmente imigrantes de Belém – uma cidade na foz do grande rio, tão distante do Rio quanto Moscou está de Londres – ele oferece interpretações autênticas dos singulares ingredientes tropicais que estão no coração da mais moderna haute cuisine metropolitana do Brasil. O tacacá em si é uma sopa cítrica e azeda de camarão, repleta de folhas de jambu que adormecem a língua e escondendo um inquietante e gigantesco glóbulo transparente de goma de tapioca com textura de catarro. Igualmente revigorante é o açaí, a pasta da “superfruta” que virou mania entre os frequentadores de academia cariocas, aqui servido em sua forma tradicional amazônica – sem guaraná; cremoso, não crocante de gelo; e com notas de cacau intensamente amargas contrastando com sua doçura sedutora.

“Costas eretas! Peito para cima! Quadris firmes!” Carla Campos berra por cima do tumulto selvagem da batida de samba que sacode as caixas de som em seu elegante estúdio de dança em Ipanema. “Parem de ficar pulando! Parem de se contorcer! Vocês não são galinhas. Vocês não são minhocas. Vocês são homens! Vocês são malandros!”

Ah, o malandro — o arquétipo do bad boy, o vigarista, o conquistador, o herói de todas as primeiras canções de samba do Rio de Janeiro. Minha primeira aula de samba está chegando ao fim, e eu me sinto um fracasso. Mas, com o toque habilidoso de uma marionetista, Carla me puxa para fora — crânio, esterno, barriga, costas, cada um levado em vetores opostos e — abracadabra! — estou dançando rigidamente ereto, peito estufado como o de um galo, uma energia masculina intensa inundando minhas veias. É um impacto e tanto, uma euforia — uma sensação deliciosamente estranha para um escriba britânico curvado, de óculos e alcoólatra como eu.

Minha aula não apenas me apresentou a um novo lado de mim mesmo (Chico, devo chamá-lo, meu malandro interior? Ou talvez Nelson?). Também foi um ótimo exercício físico e uma lição sobre a necessidade de parar de pensar e simplesmente fazer as coisas na vida. Como mais, no espaço de uma única hora, convencer quadris, braços e pés a se moverem regularmente em um ritmo frenético, porém em ritmos diferentes, em direções diferentes, enquanto também se sorri amplamente e se incorpora o espírito de um herói mítico do folclore brasileiro? O fato de eu ter conseguido fazer algo que se aproximasse desse feito, mesmo por alguns segundos, perto do fim da aula da Carla, já é uma grande conquista por si só.

Uma fusão exclusivamente brasileira de elementos africanos e europeus mais antigos, o samba nasceu na virada do século XX no Rio de Janeiro e logo se tornou uma febre em todo o país. Mais tarde, gerou milhares de variantes — mais famosa entre elas, os tons sussurrados, cintilantes e influenciados pelo jazz da Bossa Nova. É a principal exportação cultural do Brasil, e você pode aprender a dançá-lo praticamente em qualquer lugar do planeta. Mas não há nada como vivenciá-lo em sua cidade natal, onde ele continua sendo a trilha sonora da vida cotidiana.

Meu guia é Tom Robinson, da própria Dehouche, que tem conexões fantásticas com a multifacetada cena do samba na cidade. Ao saber da minha recém-descoberta obsessão pelo meu nascente malandro interior, ele e a sambista brasileira, extremamente elegante, Keyla Bergamazi, me levam primeiro ao território original desta última: os grandiosos boulevards da Lapa, um bairro boêmio e antigo distrito da luz vermelha, onde os clubes de samba que prosperaram na década de 1930 ainda continuam firmes e fortes.